MATRIZ HÍDRICA INDUSTRIAL RESILIENTE – LIÇÕES APRENDIDAS

IMPRENSA ALADYR. A necessidade de ampliar o planejamento de longo prazo, diversificar a matriz hídrica, fortalecer a resiliência das infraestruturas e acelerar a adoção de novas tecnologias foi o principal ponto de convergência do debate sobre os desafios da água para a indústria. Organizado pela Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água (ALADYR) e pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), com o patrocínio da AWC, GS INIMA e da Veolia, o encontro foi realizado na sede da CNI, em São Paulo. O evento reuniu lideranças do setor e foi moderado por Eduardo Pedroza, membro do Conselho Diretivo da ALADYR e Diretor de Novos Negócios da GS Inima Industrial.
Durante a discussão, destacou-se que a segurança hídrica não pode mais ser associada apenas à disponibilidade de água. Eventos climáticos extremos, variações na qualidade da água bruta, períodos prolongados de escassez e riscos de inundações exigem infraestruturas mais robustas, flexíveis e preparadas para diferentes cenários.

Marcos Macedo, Diretor de Operações Industriais da GS Inima no Brasil, abordou o tema “O custo da contingência versus o planejamento preventivo” e ressaltou que a ausência de planejamento pode gerar custos elevados e comprometer a continuidade das operações.
“Atuar apenas na contingência é muito mais caro. Isso reforça a necessidade de considerar os riscos hídricos desde a concepção dos projetos”, afirmou Macedo. O executivo também chamou a atenção para dois fatores frequentemente subestimados: as variações na qualidade da água bruta e os impactos das inundações. Segundo ele, o mercado ainda costuma projetar soluções com foco predominante nos períodos de seca, sem avaliar adequadamente o conjunto de riscos que pode afetar a continuidade das operações industriais.
Como exemplo de resiliência, foi apresentada a experiência do Polo Petroquímico de Triunfo, no Rio Grande do Sul. Construída entre o final da década de 1970 e o início dos anos 1980, a infraestrutura conseguiu manter sua operação e o abastecimento durante as severas inundações que atingiram o estado, apesar dos operadores terem permanecido isolados no local durante vários dias.
O caso demonstra que a resiliência não depende apenas da adoção de tecnologias de última geração. Ela também está relacionada à robustez das instalações, à operabilidade, à facilidade de manutenção e à capacidade de adaptação das equipes e organizações diante de situações adversas.
A modernização tecnológica foi apontada como outro pilar essencial. A combinação de inteligência artificial, internet das coisas (IoT) e gêmeos digitais permite ampliar o monitoramento preditivo, antecipar falhas e melhorar o desempenho dos sistemas.
Essa evolução também vem alterando a relação entre custo e desempenho. Na indústria de papel e celulose, apesar de uma postura mais tradicional na adoção de tecnologias em sistemas de tratamento de água e efluentes, já estão sendo adotadas novas soluções, como os sistemas de ultrafiltração, em razão de sua competitividade em comparação com as alternativas convencionais, agregando maior estabilidade e confiabilidade operacional.

Por sua vez, Massimiliano Santavicca, Vice-Presidente Sênior para a América Latina da Veolia Water Technologies, observou que soluções amplamente consolidadas no mercado internacional que podem ter maior abrangência no Brasil. Entre elas, destacam-se:
- Water as a Service (WaaS): modelo no qual empresas especializadas assumem a implantação, operação e gestão dos sistemas hídricos industriais;
- Reúso de águas: utilização de efluentes sanitários tratados como fonte alternativa de água para atividades industriais;
- Valorização de resíduos: aproveitamento de subprodutos do saneamento para a geração de biogás e de energia térmica ou elétrica.
Ao apresentar o programa estratégico GreenUp, da Veolia, Santavicca explicou que um dos principais entraves à incorporação da sustentabilidade nos negócios é a ausência de critérios claros para a validação econômica dos projetos dentro das empresas.
Sem métricas financeiras capazes de demonstrar os benefícios dos investimentos em sustentabilidade, redução de riscos e continuidade operacional, as organizações tendem a privilegiar decisões de curto prazo, voltadas apenas às necessidades imediatas. Para o executivo, o avanço dessa agenda exige a busca pelas melhores alternativas operacionais, a adoção de sistemas produtivos mais inteligentes e, sobretudo, uma visão de longo prazo.
Desafios da cadeia produtiva nacional
O debate também avaliou a capacidade da indústria brasileira de fornecer as tecnologias necessárias à transformação da matriz hídrica.
Santavicca destacou que, na cadeia produtiva, há áreas nas quais temos plena competência para avançar como fornecedores nacionais, a exemplo de componentes e estruturas de automação.
Marcos Macedo ponderou, entretanto, que o Brasil não precisa necessariamente produzir todos os componentes utilizados nesses sistemas, como membranas. Na sua avaliação, o foco estratégico deve ser identificar os segmentos nos quais o país possui maior vocação competitiva e concentrar esforços no seu desenvolvimento.

Para os operadores, a importação de determinados componentes não inviabiliza os projetos, desde que exista uma cadeia local de suprimentos ágil e estruturada, capaz de assegurar disponibilidade de peças, manutenção e assistência técnica.
Nas considerações finais, os participantes reforçaram que a segurança hídrica exige uma abordagem integrada entre indústria, saneamento, agricultura, energia e infraestrutura.

Eduardo Pedroza defendeu uma articulação mais estreita entre esses setores para viabilizar projetos regionais e compartilhados de reúso, aproveitando os instrumentos da Política Nacional de Recursos Hídricos e aproximando produtores de água, operadores, indústrias, governos e instituições financeiras.
Embora o compartilhamento de infraestruturas, o reúso e a recuperação de mananciais representem caminhos viáveis para ampliar a oferta e reduzir a vulnerabilidade hídrica, o avanço desses projetos ainda enfrenta entraves regulatórios e desafios relacionados à definição de responsabilidades, custos e estruturas tarifárias.
Para Pedroza, a diversificação da matriz hídrica deve combinar eficiência no uso da água, reúso, dessalinização e outras fontes alternativas, de acordo com as características de cada território e atividade econômica. Essa transformação dependerá de regulação adequada, inovação tecnológica, financiamento e modelos contratuais capazes de viabilizar investimentos de longo prazo.
Ao encerrar o debate, Pedroza reforçou que segurança hídrica não significa apenas ter água disponível na torneira. Significa assegurar água em quantidade e qualidade adequadas e estar estrutural, operacional e financeiramente preparado para manter as atividades econômicas funcionando diante das incertezas climáticas e dos eventos extremos.
Mais do que uma agenda ambiental, a segurança hídrica deve ser compreendida como infraestrutura estratégica para a competitividade da indústria e para o desenvolvimento econômico do Brasil.

