Um marco tecnológico para o futuro da segurança hídrica no Brasil

MPRENSA ALADYR. A Companhia de Água e Esgoto do Ceará, CAGECE, assinou nesta quinta-feira a autorização oficial para o início imediato das obras da planta de dessalinização do Ceará. Com um investimento superior a R$ 3.141 milhões e período de execução de 24 meses, o megaprojeto se consolida como a maior infraestrutura de dessalinização de água do mar para consumo humano na história do Brasil.
O Consórcio Águas de Fortaleza, liderado pela Marquise S/A e integrado pela PB Construções, além de contar com sócio e aliados internacionais, será responsável pela construção, operação e manutenção da Planta de Dessalinização de Fortaleza por meio de uma Parceria Público-Privada (PPP) com a Cagece, com prazo de concessão de 30 anos.

Especificações técnicas e matriz de processo
O projeto se destaca por suas inovações tecnológicas e o seu compromisso com a sustentabilidade. Ele integra sistemas de recuperação de energia de alta eficiência e configuração otimizada do processo, permitindo uma redução significativa no consumo de energia. Além disso, possui baixa pegada de carbono, contribuindo para a proteção do meio ambiente e a produção sustentável de água dessalinizada.
O ciclo industrial é dividido em três fases críticas:

- De cada 2.300 litros de água bruta retirada do oceano, 1.000 litros são transformados em água potável de alta pureza.
- A salmoura restante será devolvida ao oceano de forma ambientalmente responsável, utilizando sistemas hidráulicos de difusão para mitigar qualquer impacto no ecossistema marinho.
- A primeira fase de 5 meses inclui o desenvolvimento do adutor, sistemas de drenagem e industrialização de tubulações primárias, com vista para iniciar operações comerciais diretas até a segunda metade de 2028.
Relevância estratégica para o futuro do Brasil
A Planta de dessalinização produzirá 1 metro cúbico por segundo (1.000 litros/s) de água, o que substituirá 12% do consumo atual da Região Metropolitana de Fortaleza e abastecerá diretamente 720.000 habitantes.
No nível macroeconômico e social, este projeto transforma o paradigma da gestão da água no Brasil em três aspectos:
- Desacoplamento climático: Rompe a dependência histórica do ciclo das precipitações e dos níveis de armazenamento dos reservatórios interiores, proporcionando total previsibilidade para centros urbanos e setores produtivos.
- Diversificação da matriz hídrica: Ela aliviará a pressão sobre os reservatórios no interior do estado, permitindo que essas fontes tradicionais sejam usadas para a agricultura e garantindo o desenvolvimento econômico de longo prazo.
- Escalabilidade nacional: Funciona como o principal laboratório de infraestrutura hídrica não convencional em grande escala no país, estabelecendo um precedente técnico-financeiro que pode ser replicado em outros estados brasileiros que enfrentam estresse hídrico recorrente.
Para a Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso da Água, ALADYR, esse passo posiciona o país na vanguarda da resiliência global. Eduardo Pedroza, diretor da associação, destacou:

” A autorização para o início das obras da Dessalinizadora de Fortaleza representa um marco para a segurança hídrica do Brasil. Em um contexto de mudanças climáticas, crescimento urbano e maior pressão sobre os recursos hídricos, a dessalinização não é mais apenas uma alternativa para se consolidar como uma infraestrutura estratégica de abastecimento. Ceará reafirma sua posição de liderança ao transformar o planejamento de longo prazo em ações concretas, fortalecendo a resiliência hídrica de toda a Região Metropolitana de Fortaleza e estabelecendo uma referência para outros estados brasileiros”
Gestão dos desafios socioambientais
O início da fase de construção é resultado de anos de consultoria técnica para mitigar contingências críticas:
- A localização original da Planta foi modificada e reposicionada em direção a uma área segura da Praia do Futuro. Isso evitou qualquer risco de interferência ou dano físico aos cabos submarinos de fibra óptica, protegendo o principal nó estratégico de telecomunicações e internet do Brasil.
- Como a linha costeira é uma área chave para a desova das tartarugas marinhas, os trabalhos preveem perfurações profundas a 20 metros da superfície. As frentes de construção operarão sob rigorosas condições ambientais supervisionadas pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente, SEMANECE, entidade que concedeu a Licença de Instalação definitiva (LI).
- O concessionário concluiu a realocação das famílias formalmente estabelecidas dentro do perímetro do projeto. Atualmente, está realizando mesas de diálogo ativas com as comunidades vizinhas para mitigar o inconveniente do trabalho e integrar melhorias urbanas colaterais.
ESG (Ambiental, Social e Governança)
O Dessal do Ceará foi projetado sob os mais altos padrões internacionais de ESG (Ambiental, Social e Governança), garantindo que o desenvolvimento da planta gere um impacto positivo abrangente e sustentável a longo prazo:
- Eixo Ambiental: A Planta implementará sistemas de recuperação de energia (ERDs) de última geração, reduzindo o consumo de eletricidade por metro cúbico produzido. O consórcio priorizará o fornecimento de energia a partir de fontes 100% renováveis (eólica e solar), minimizando a pegada de carbono da operação. O projeto de saída subaquática inclui modelagem hidrodinâmica avançada para garantir que a diluição da salmoura ocorra de forma acelerada, protegendo recifes próximos. Além disso, a lama gerada no pré-tratamento receberá gestão de resíduos sob princípios de economia circular para reutilização industrial.
- Eixo Social:Além de abastecer 720.000 cidadãos, o projeto prioriza a contratação de mão de obra local durante a fase de construção, estimando a criação de mais de 1.000 empregos diretos e indiretos. Oficinas de conscientização sobre o uso responsável da água e a preservação da costa costeira serão ativadas em escolas das comunidades vizinhas da Praia do Futuro.
- Eixo de Governança: Por ser uma Parceria Público-Privada com duração de 30 anos, o contrato inclui auditorias independentes periódicas, matrizes de risco compartilhadas e rigorosos comitês de conformidade ética para garantir a transparência financeira e operacional dos gastos de R$ 3.141 milhões. O consórcio buscará alinhar a operação da Planta com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especificamente o ODS 6 – Água Limpa e Saneamento e o ODS 13 – Ação Climática.


