Por que o tratamento biológico em ETEs não resolve o problema do chorume em São Paulo

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A academia adverte que o envio de chorume para estações de tratamento convencionais apenas dilui os poluentes. Especialistas em engenharia propõem o tratamento especializado in situ para neutralizar aquele que está catalogado como o efluente líquido mais poluente e concentrado da gestão urbana.

Por Diego Ortuño. A Região Metropolitana de São Paulo gera diariamente mais de 20 mil toneladas de resíduos sólidos urbanos. Nos aterros sanitários que concentram esse volume, a decomposição da matéria e o contato com a água da chuva produzem um fluxo ininterrupto de percolado (chorume), um resíduo líquido caracterizado por concentrações de carga orgânica e toxicidade que podem superar em mais de cinquenta vezes a intensidade do esgoto doméstico.

Diante da complexidade técnica que exige o seu tratamento, a prática habitual dos operadores metropolitanos tem consistido em encaminhar esse chorume para as estações de tratamento de esgoto (ETEs) da rede pública. No entanto, a comunidade científica e os especialistas em engenharia de processos apontam que esse mecanismo não depura a fração mais perigosa do efluente e propõem a implementação de tecnologia avançada no próprio ponto de origem.

Dr. José Carlos Mierzwa, professor titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo

O professor titular do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Dr. José Carlos Mierzwa, sustenta que «a questão do percolado de aterros é um tema de grande relevância, mas que já deveria ter sido superado, como ocorreu em países mais desenvolvidos». Segundo explica o pesquisador, o modelo da cidade «já não é mais compatível com os modelos mais modernos de gestão, que priorizam o conceito de circularidade».

Mierzwa lembra que a própria Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) do Brasil contempla a eliminação progressiva dos aterros sanitários devido à falta de área para a sua implantação e aos seus passivos derivados. «Neste caso, as prefeituras, que são responsáveis pelo serviço de coleta e destinação de resíduos, deveriam prever em seus contratos de concessão o uso de procedimentos e tecnologias que eliminem a necessidade de utilização de aterros sanitários», aponta. O professor da USP identifica a fração orgânica — que representa aproximadamente 50% da massa total de resíduos — como a causa direta da formação massiva de chorume, um desafio estrutural diante da falta de programas efetivos de coleta segregada e valorização tecnológica, como a biodigestão para recuperação energética e condicionador de solo.

Quanto à prática disseminada de enviar efluente concentrado para as estações de tratamento de esgoto urbanas, o professor da Poli-USP enfatiza que «A solução atualmente dada para a destinação de percolado de aterros, que é o envio para estações de tratamento de esgotos, também não resolve o problema, mesmo porque esse material já passou por um processo biológico de degradação no próprio aterro sanitário».

Como resultado dessa digestão prévia dentro do aterro, a composição química do percolado fica desprovida de elementos facilmente biodegradáveis e dominada por compostos refratários para os quais as estações de tratamento de esgoto não foram projetadas para degradar, ocorrendo, principalmente, o efeito de diluição de alguns compostos. «Isso pode ser constatado quando são avaliados os principais estudos sobre tratamento de percolado de aterro disponíveis por meio de publicações em periódicos científicos», completa Mierzwa.

Separação física in situ

Quando um efluente já esgotou a sua biodegradabilidade biológica natural, submetê-lo a um trem secundário de lodos ativados em uma ETE urbana não elimina os poluentes persistentes; simplesmente os dispersa em vazões maiores que acabam desaguando em corpos receptores estratégicos, como a bacia do Alto Tietê.

Diante dessa limitação, a engenharia sanitária adiantou que não existem soluções universais porque cada chorume é único, mas que, na maior parte dos casos, a resposta pressupõe substituir a degradação bacteriana pela separação física de alta retenção por meio de membranas diretamente nas instalações do aterro.

Fernando Saroglia, Global Business Development Manager da Conseptec e membro da Associação Latino-Americana de Dessalinização e Reúso de Água (ALADYR), coincide com o diagnóstico acadêmico e ressalta que o chorume não deve abandonar o perímetro do aterro sem um tratamento integral. «A limitação conceitual tem sido tratar um efluente industrial de extrema complexidade química como se fosse um resíduo doméstico assimilável», explica Saroglia. Acrescentou que, se as bactérias de uma ETE urbana não conseguem romper as cadeias moleculares dos compostos recalcitrantes nem reter os metais pesados ou o excesso de sais, a resposta técnica viável costuma ser a filtração por membranas instaladas no próprio aterro sanitário.

O volume restante fica reduzido a um concentrado de sais e matéria refratária que pode ser gerenciado por meio de recirculação controlada ou secagem térmica, eliminando por completo a dispersão do passivo ambiental fora da instalação.

Por outro lado, para Mierzwa, o setor público pode adotar modelos de gestão modernos em seus contratos de concessão. O professor sustenta que a solução de fundo passa por cumprir a Política Nacional de Resíduos Sólidos e deixar de transferir às estações de tratamento de esgoto um passivo que não podem tratar.

Para finalizar, é possível assegurar que a evidência científica e a experiência da engenharia convergem ao apontar que a proteção dos mananciais metropolitanos exige tratar o efluente mais poluente da cidade ali onde ele é gerado, transformando um passivo crítico em água reutilizável antes que alcance os recursos hídricos compartilhados.

O caso de sucesso de Hainan

Na província de Hainan (China), a Conseptec solucionou a saturação de um complexo de resíduos onde a geração massiva de chorume superava a capacidade local. A solução de engenharia consistiu na instalação de um trem modular na própria fonte, integrado por membranas tubulares e osmose reversa de alta pressão (DTRO), articulado com um sistema de evaporação térmica para a corrente concentrada.

Esse esquema tecnológico permitiu recuperar entre 75% e 80% do efluente como água clarificada para sua reutilização imediata nas operações do próprio complexo. Ao reter os contaminantes persistentes, a instalação protegeu os recursos hídricos locais.